quarta-feira, 20 de março de 2013

Os acrobatas

Subamos!
Subamos acima
Subamos além, subamos
Acima do além, subamos!
Com posse física dos braços
Inelutavelmente galgaremos
O grande mar de estrelas
Através de milênios de luz.

Subamos! Como dois atletas

O rosto petrificado
No pálido sorriso de esforço
Subamos acima
Com a posse física dos braços
E os músculos desmesurados
Na calma convulsa da ascensão.

Oh', acima

Mas longe que tudo
Além, mais longe que acima do além!
Como dois acrobatas
Subamos, lentíssimos
Lá onde o infinito
De tão infinito
Nem mais nome tem
Subamos!

Pela corda luminosa

Que pende invisível
E cujos nós são astros
Queimando nas mãos 
Subamos à tona
Do grande mar de estrelas
Onde dorme a noite
Subamos!

Tu e eu, herméticos

as nádegas duras
A carótida nodosa
Na fibra do pescoço
Os pés agudos em ponta

Como no espasmos.


e quando

Lá em cima
Além, mais longe que acima do além
adiante do véu de Betelgeuse
Depois do país de Altair
Sobre o cérebro de Deus

Num último impulso

Libertados do espírito
Despojados da carne
Nós nos possuiremos.

E morreremos

Morreremos alto, imensamente
IMENSAMENTE ALTO.

MORAIS, Vinicius de. Antologia poética.Companhia das Letras,2009. São Paulo. Pág.. 122 e 123.


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